ABRAINC NEWS

6 de março de 2023

Editorial Brazil Journal: O juro tem que cair

Compartilhar:

As intempéries que se avolumam sobre a economia brasileira estão transformando a vida das empresas numa panela de pressão, com riscos iminentes ao nível de emprego e à estabilidade econômica.

Com a Selic estacionada em 13,75%, cada vez mais empresas estão trabalhando apenas para pagar sua despesa financeira, deixando nada na mesa para acionistas e muito menos para investimento no futuro.

Numa entrevista ao Brazil Journal que vai ao ar esta semana, o banqueiro Ricardo Lacerda, do BR Partners – que está trabalhando na reestruturação da dívida de empresas como Lojas Marisa e CVC – disse que a lista de nomes que precisarão negociar com os credores está aumentando de forma preocupante, dada a deterioração dramática das condições de liquidez da economia.

No mercado secundário de dívida, os créditos mais conservadores do País estão pagando taxas impensáveis até pouco tempo atrás: Localiza e Cosan, por exemplo, estão pagando IPCA + 8,7% e IPCA + 8,5% respectivamente.

Gestores de investimento e executivos de empresas estão assustados com a velocidade da deterioração das expectativas – que começam a se refletir em previsões de PIB cadentes para este ano e o próximo.

Obviamente, o Palácio do Planalto não dará o braço a torcer sobre sua responsabilidade por este cenário.

Na política, todo mundo já entendeu que o Presidente Lula voltou ao Poder não como representante da frente ampla anti-Bolsonaro que o elegeu – e sim como arauto das mesmas ideias econômicas atrasadas que produziram o desastre épico do Governo Dilma, desta vez turbinadas por um Presidente mais emotivo e sem amigos dispostos a lhe dizer a verdade.

Neste quadro, o Governo responderá à crise que se aproxima fazendo mais do mesmo – transformando o BC no bode expiatório da Selic gorda – sem jamais admitir que seus discursos populistas e decisões temerárias têm contribuído diariamente para agravar o quadro.

Enquanto parte do Governo diz compreender a necessidade de estabilizar a trajetória da dívida pública, a outra parte (a que manda) questiona e sataniza todas as conquistas recentes do País, do teto de gastos à independência do BC, da lei das estatais à política de preços da Petrobras.

Eterno dono do monopólio da verdade, o PT adora os verbos “debater” e “discutir”, mas só ouve sua própria voz.

Mas apesar do Governo – e não por causa de sua cruzada contra o Banco Central – o mais provável é que a Selic começará a cair em breve, dado que a razão de ser dos bancos centrais é o duplo mandato de “estabilidade de preços” e compromisso com o “pleno emprego” – e de nada vale uma inflação suíça em meio a um ambiente de negócios argentino.

Além disso, quebras de empresas em série poderão criar problemas com os quais o BC não tem que lidar há anos.

O juro baixo é o pau do circo – é o que sustenta tudo.

Desde a primeira eleição de Lula em 2002, o Brasil mudou muito – e o nível da taxa de juros passou a ser ainda mais crítico ao funcionamento saudável da economia.

Desde janeiro de 2003, o primeiro mês do Lula 1, o endividamento total das pessoas e das empresas passou de 26% do PIB para 52,5% do PIB.

Ou seja, um juro alto agora tem um impacto muito pior sobre a economia do que 20 anos atrás.

Nos últimos 20 anos, outra novidade aconteceu. Em vez de tomarem dinheiro só no banco, as empresas passaram a tomar emprestado com as pessoas – aprofundando o chamado mercado de capitais. Se o Presidente pesquisar, vai descobrir metalúrgicos de São Bernardo e dentistas de Garanhuns entre os milhões de pequenos poupadores/investidores que têm sua açãozinha da Petrobras e uma conta na XP.

O total levantado pelas empresas junto a esses investidores (que não são bancos) passou de 2% do PIB em 2016 para quase 7% do PIB ano passado.

O juro alto destrói esses investimentos e adia a aposentadoria do brasileiro que lutou muito para conseguir poupar. Além de investir, esses brasileiros também têm o costume de votar a cada quatro anos.

Gerar um ambiente propício à queda da Selic deveria ser a prioridade zero do Governo — porque é possível manter parte do eleitorado feliz com o Bolsa Família, mas é impossível chegar a um final de mandato feliz com quatro anos de juros altos.

É o juro baixo que cria o círculo virtuoso de investimento, emprego e renda: os empreendedores tomam risco, assinam carteiras e fazem novas fábricas. O dinheiro circula, criando oportunidade para quem mais precisa.

Já o juro alto empurra o capital para uma longa hibernação em contas remuneradas. O rico continua protegido; o pobre se estrepa.

O Banco Central ia começar a cortar os juros em 2023, mas o Presidente se colocou no caminho: decidiu fazer (apenas) discursos contra a pobreza, em vez de tomar decisões pragmáticas que realmente ajudariam os juros a cair, gerando empregos e renda no mundo real.

Se o Planalto não trabalhar para reverter este clima, a velha frase de que “todo mundo ganhou dinheiro” no Lula 1 dará lugar a “todo mundo perdeu” no Lula 3, e o Lula que o mundo aplaude por seu compromisso ambiental logo será lembrado por uma economia rastejante.

Presidente, sua opção preferencial pelos pobres não é incompatível com decisões econômicas racionais — ao contrário, uma depende da outra. Traga de volta a “paz e amor.” O fígado não é bom conselheiro.

Fonte: Brazil Journal

Compartilhar:

Notícias relacionadas

9 de junho de 2026

ABRAINC apoia manifesto em defesa da PEC 12 do Trabalho Flexível

Entidade se junta a organizações que representam mais de 40 milhões de empregos no Brasil em apoio à modernização das relações de trabalho

<

Categoria:
29 de maio de 2026

Novas restrições no Campo de Marte podem gerar prejuízo de R$ 25 bilhões para São Paulo em dez anos

Estudo da ABRAINC em parceria com o Secovi aponta que mudanças na operação do aeroporto impactam 90% da produção imobi

Categoria:
28 de maio de 2026

ABRAINC participa de audiência pública no STJ sobre solução extrajudicial em ações de consumo

Tema 1396 discute se consumidores devem comprovar tentativa prévia de solução antes de ingressar com ação judicial

Categoria:
26 de maio de 2026

ABRAINC defende transição mínima de 60 meses para mudanças na escala 6x1

O presidente da ABRAINC, Luiz França, concedeu entrevista à CNN Brasil nesta segunda-feira (25/05) sobre os possíveis impactos da proposta de fim da escala 6x1 para o setor de incorporação imobiliária.

Na aval

Categoria: