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22 de abril de 2026

Brazil Economy: "FGTS para pagar dívidas ameaça PIB, emprego e habitação", diz CEO da ABRAINC

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Em entrevista ao Brazil Economy, Luiz França alerta que liberação de recursos para consumo imediato pode retirar bilhões do setor imobiliário, reduzir investimentos e comprometer a sustentabilidade do fundo no longo prazo

O engenheiro civil Luiz França é uma das principais autoridades do Brasil quando se fala do setor de incorporação. Ex-diretor executivo do Banco Itaú, onde atuou por 16 anos, inclusive com crédito imobiliário, também foi presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) e presidente do Conselho de Administração da Companhia Brasileira de Securitização (Cibrasec). Atualmente, França preside a Abrainc, Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias, além de ocupar a presidência do Conselho da Renac, Recuperadora Nacional de Crédito, e integrar conselhos de empresas como Banco Inter, Cury Construtora e Incorporadora e CBA Empreendimentos Imobiliários. 

Em meio às discussões sobre a tentativa do governo de liberar o saldo do FGTS para quitação de dívidas, França conversou com o BRAZIL ECONOMY sobre os impactos dessa medida na economia. Na avaliação do executivo, a proposta troca investimento produtivo por alívio financeiro de curto prazo, com efeitos diretos sobre crescimento, arrecadação e emprego.

O Governo Federal quer liberar cerca de R$ 7 bilhões do FGTS para a quitação de dívidas. Como o setor de incorporadoras vê essa decisão?
Vemos com profunda preocupação. Embora a intenção de aliviar o endividamento das famílias seja legítima, usar o FGTS para isso é um desvio de finalidade. O Fundo, além de ser uma poupança do trabalhador, é o principal motor da habitação, do saneamento e da infraestrutura no Brasil. Nos últimos nove anos, R$ 140 bilhões já foram direcionados ao consumo. Liberar mais R$ 7 bilhões agora significa, na prática, deixar de construir até 50 mil moradias, trocando patrimônio por alívio momentâneo em juros.

Você enxerga isso como uma decisão eleitoral?
Minha análise é técnica e setorial. O que observamos é uma tentativa de resolver problemas conjunturais com recursos estruturais. O FGTS protege o trabalhador em momentos de desemprego e viabiliza o acesso à casa própria. Priorizar o consumo imediato em detrimento da segurança patrimonial é uma estratégia que já falhou no passado e compromete a sustentabilidade do Fundo.

Estimativas da Abrainc apontam que o PIB brasileiro deve ser reduzido em R$ 9,1 bilhões com a decisão. O que explica esse efeito?
O investimento em habitação tem um efeito multiplicador relevante. Cada R$ 1 bilhão investido retorna cerca de R$ 300 milhões em impostos e movimenta toda a cadeia produtiva. Ao retirar R$ 7 bilhões desse sistema, interrompe-se esse ciclo. A queda de R$ 9,1 bilhões no PIB e a perda de R$ 2,1 bilhões em arrecadação refletem menos obras, menos atividade econômica e menor geração de valor.

Como o mercado de trabalho seria impactado?
O impacto é direto. Estimamos que cerca de 91 mil empregos estejam em risco. A construção civil tem alta capacidade de absorção de mão de obra em curto prazo. Caso a liberação avance para 20% do saldo, como discutido em alguns estudos, a perda pode chegar a 225 mil postos de trabalho. É um contrassenso enfraquecer um dos principais motores de geração de emprego para aliviar o custo de dívidas.

Como você vê o mercado de incorporadoras em 2026?
Apesar dos juros elevados, sobretudo para a média renda, o cenário estrutural segue positivo. O Brasil tem um déficit habitacional de 5,8 milhões de unidades e uma demanda projetada de 11,4 milhões na próxima década. Com estabilidade de crédito e preservação do FGTS, o setor continuará sendo um dos pilares do crescimento econômico.

O atual patamar da Selic é desfavorável para o setor?
Sim, principalmente para a classe média. O Minha Casa, Minha Vida, financiado com recursos do FGTS, é menos sensível aos juros. Já o mercado de médio e alto padrão depende do crédito via Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo. Com a Selic em dois dígitos, o financiamento se torna mais caro e reduz a demanda.

Qual seria a Selic ideal?
Uma Selic em um dígito permitiria a retomada mais consistente do mercado de média renda. Historicamente, juros mais baixos impulsionam lançamentos e vendas ao tornar as prestações mais acessíveis para as famílias.

Como o setor vem incorporando práticas de ESG?
O avanço é significativo. ESG deixou de ser um conceito restrito ao meio ambiente e passou a incorporar dimensões econômicas e sociais. Há investimentos em eficiência nos canteiros, redução de resíduos e uso racional de recursos. No campo social, o maior impacto continua sendo a redução do déficit habitacional e a oferta de moradia digna com infraestrutura adequada.

Quais regiões hoje concentram as melhores oportunidades?
São Paulo permanece como o principal mercado, mas há forte dinamismo no Centro-Oeste, impulsionado pelo agronegócio, e no Nordeste, onde o Minha Casa, Minha Vida tem papel relevante na atividade econômica e na expansão do setor.

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