ABRAINC NEWS

27 de outubro de 2021

Ambientes distintos

Compartilhar:

(*) Luiz Antônio França

A China vive um momento desafiador. A situação delicada das incorporadoras Evergrande, segunda maior do país, e da Fantasia em honrar suas dívidas ameaça a estabilidade econômica do gigante asiático. Entretanto, esse cenário não tem nenhuma relação com o atual mercado imobiliário brasileiro. O caminho escolhido para expandir seus negócios levou a Evergrande a contrair alto volume de empréstimos e a diversificar demais seus investimentos. Porém, o mercado imobiliário brasileiro segue saudável. Os ambientes para esse setor são bem distintos quando olhamos para a China e o Brasil. Não temos aqui a prática de alavancagem, o que reduz a matriz de riscos. Em geral, as nossas incorporadoras têm um bom caixa e fácil acesso ao mercado de capitais. O país contabiliza 30 empresas desse segmento com capital aberto no setor de Real Estate.

O financiamento habitacional no Brasil é lastreado por um robusto arcabouço jurídico, que evoluiu muito nos últimos anos, fruto do aprendizado vindo com a falência da Encol em 1999. Em 2004, houve a implantação da Alienação Fiduciária e do Patrimônio de Afetação; em 2018, demos outro passo importante com a aprovação da Lei do Distrato. Essa legislação garante proteção a investidores e compradores e mitiga os riscos de forma substancial. Todo esse arcabouço legal propiciou um forte e sustentável desenvolvimento no mercado brasileiro de crédito imobiliário. Uma prova disso é que ao avaliarmos a média de unidades financiadas nos 10 anos antes da implantação do marco legal, em 2004, e os 10 anos depois tivemos um aumento de 800%.

O ano de 2020, marcado pela crise sanitária e econômica, foi positivo para a construção, que gerou um saldo positivo de empregos. Nos últimos 12 meses, foram criados 312 mil empregos formais, de acordo com o Caged, sendo que a construção civil foi o setor que mais contribui para a geração de empregos. Atualmente, a inadimplência do crédito imobiliário no Brasil segue em patamares bastante baixos; o índice de atraso acima de 90 dias no Sistema Financeiro de Habitação (SFH) está em 0,98%. Os processos para financiamento de imóveis por aqui são bem rigorosos, exigindo diversos comprovantes tanto para o financiamento de imóveis prontos quanto para o financiamento de construção, cujos recursos somente são liberados de acordo com o andamento da obra. Tudo isso garante uma forte segurança ao financiamento habitacional e inibe a prática de alavancagem por parte das empresas do setor.

Em vários pontos do país a valorização dos imóveis é sensivelmente visível, motivada pelas boas condições de crédito imobiliário e pela taxa de juros real (juros menos inflação) negativa. De acordo com o indicador IGMI-R (Índice Geral do Mercado Imobiliário Residencial) da Abecip, houve um crescimento de 11% no preço dos imóveis nos últimos 12 meses. Em São Paulo, a valorização chegou a 19%. O fato é que a oferta de crédito imobiliário segue crescente. Em 2021, as contratações desse tipo de financiamento subiram 108% no primeiro semestre, em relação a igual período do ano passado, atingindo seu maior volume histórico. Também é crescente a venda de imóveis novos. De acordo com indicadores do setor, a venda de imóveis no primeiro semestre subiu 25%, se comparada ao mesmo intervalo de 2020; já os lançamentos subiram 61%. E os incorporadores seguem confiantes: dados da pesquisa Abrainc/Delloitte mostram que 94% dos empresários pretendem comprar um terreno nos próximos 12 meses.

Temos, ainda, um alto déficit habitacional - cerca de 7,8 milhões de famílias ainda buscam a casa própria. Além disso, estima-se que cerca de 1,1 milhão de novas famílias serão formadas anualmente. Esse volume é cerca de duas vezes acima da quantidade de imóveis novos produzidos no último ano. Portanto, os pilares que vão garantir o crescimento sustentável do mercado estão bem constituídos: forte demanda, segurança jurídica, capacidade de financiamento e uma séria de empresas bem capitalizadas e com boa governança. Desse modo, a recente crise imobiliária chinesa não tem nenhuma hipótese de afetar as incorporadoras brasileiras.

*Luiz Antônio França

Presidente da ABRAINC (Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias)

Compartilhar:

Notícias relacionadas

11 de março de 2026

Setor produtivo alerta para impactos da redução da jornada de trabalho em vídeo

Material assinado por mais de 125 entidades aponta que proposta pode elevar custos da construção e dificultar o acesso à casa própria

Categoria:
10 de março de 2026

Editorial: Redução da jornada de trabalho e os impactos negativos para a sociedade

A redução abrupta da jornada, sem ganho de produtividade, ameaça emprego, competitividade e o acesso à moradia

Saiba mais

9 de março de 2026

Mulheres à Obra 2026: setor da construção como aliado no combate à violência contra a mulher

Diante do avanço de casos de feminicídio no país, a quinta edição da campanha convida o setor a refletir sobre como contribuir para o enfrentamento à essa questão, r

Categoria:
25 de fevereiro de 2026

Estudo da ABRAINC sobre impactos do fim da escala 6x1 nos preços dos imóveis novos é destaque na imprensa


Categoria: