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29 de janeiro de 2024

Florestas urbanas ajudam a enfrentar ondas de calor nas cidades

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“Rio 40 graus”, como diz a canção originalmente composta e gravada por Fernanda Abreu, virou coisa do passado. Durante a onda de calor em novembro de 2023, a sensação térmica em Irajá, localizado na Zona Norte da cidade, atingiu 50,5 graus Celsius. Outras regiões do Brasil também testemunharam recordes de temperatura durante o mesmo período. Em dezembro, outra onda de calor elevou novamente os termômetros em todo o país, que já tinham testemunhado recorde em julho. Se a urbanização é um dos fatores que contribuem para o fenômeno global, mas é inevitável, porque não trazer para ela justamente os elementos de sua antagônica? Esse é o propósito das florestas urbanas.

Árvore a árvore, elas visam amenizar os efeitos do calor intenso no meio ambiente e, consequentemente, na segurança e na saúde das pessoas. Uma resposta ao estilo ‘se não pode contra, junte-se’, cujo foco é adaptar as áreas urbanas a um clima em constante transformação.

FLORESTAS URBANAS TRAZEM VIDA À CIDADE

De uma onda de calor que assolou Karachi, a maior metrópole do Paquistão, nasceu a ideia da primeira floresta urbana da região. Em 2015 os termômetros da cidade chegaram a 45 °C. Em um país marcado pela desigualdade, quem tinha o privilégio do acesso ao ar-condicionado, recorreu a ele. O saldo foi a perda de 1,2 mil vidas.

Diante desse cenário e da pouca efetividade dos sistemas de climatização para um evento de tamanho proporção, seja pela sua inviabilidade para diversas camadas sociais, como também por agravar ainda mais a urgência do aquecimento global devido a emissões de gases de efeito estufa, o empreendedor Shahzad Qureshi adotou uma abordagem inovadora. Em vez de depender de soluções tradicionais, ele apostou na criação de florestas urbanas.

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Temperatura da superfície (°C) dentro e fora de uma floresta de acordo com diferentes condições climáticas (n = coletado de 58 florestas)

(Imagem: Reprodução/ Sugi 2023 Impact Report)

Por meio de um financiamento coletivo, em 2016, Qureshi liderou a criação da primeira “floresta urbana” de Karachi no parque público de Clifton. O projeto foi concebido com um enfoque voltado para a sustentabilidade a longo prazo, visando proporcionar benefícios para a comunidade local. Na área onde a floresta urbana foi implantada, anteriormente dominada por uma montanha de lixo, agora é possível ouvir o cantar dos pássaros entre as árvores.

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Fotos: Reprodução/ Sugi Project

Desde então, a ONG liderada por Qureshi traçou um caminho de transformação, criando oito pequenas florestas em Karachi e duas em Lahore por meio do inovador método Miyawaki, baseado em plantar florestas ultradensas e biodiversas apenas de espécies nativas. Como está escrito na apresentação da instituição, trata-se de uma ”estratégia exclusiva para construir biodiversidade, resiliência climática e bem-estar”, que, atualmente, reúne os chamados ”Forest Makers”, ou ‘fazedores de florestas” – pessoas e comunidades engajadas em criar florestas urbanas mundo afora. Até 2023 já haviam sido mapeadas 226 florestas com mais de 330 mil espécies nativas plantas, em 24 países, incluindo o Brasil.

O método demanda uma preparação minuciosa do solo, seguida pelo plantio densamente planejado de uma variedade de plantas florestais nativas, benéficas para a vida selvagem, em áreas geralmente comparáveis ao tamanho de uma quadra de tênis.

Dentre os objetivos delineados, destaca-se a missão de reverter as crescentes ilhas de calor, fenômeno desencadeado pela substituição da cobertura natural do solo por superfícies que absorvem e retêm calor, como pavimentos e edifícios. 

O IMPACTO TRANSFORMADOR DAS FLORESTAS URBANAS

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Diversas cidades do Brasil estão embarcando nessa jornada verde, reconhecendo a importância de integrar a natureza ao cotidiano agitado das áreas urbanas. São Paulo, por exemplo, com suas vastas extensões de concreto, tem liderado esse movimento, com iniciativas como o Parque Cantareira, que se transformou em um pulmão verde para a metrópole. O Rio de Janeiro também possui florestas urbanas, sendo a maior delas o Parque Estadual da Pedra Branca, além de pleitear o título de sede da maior horta urbana do mundo.

Na área intraurbana de Curitiba, cientistas brasileiros conduziram uma pesquisa para avaliar o impacto das florestas urbanas nas variações termo-higrométricas. Os resultados indicam que, ao longo do dia, os parques aquecem de maneira mais gradual em comparação com as regiões urbanas. 

A análise demonstrou que áreas da cidade com maior presença de espaços permeáveis, concentração de remanescentes florestais e espaços verdes públicos registraram temperaturas mais amenas e um aumento na umidade relativa do ar. Essas descobertas destacam a importância estratégica de áreas verdes na regulação térmica urbana e corroboram a ideia de que o planejamento urbano que valoriza esses elementos contribui para ambientes mais saudáveis e equilibrados. Ou seja, para além de sua função como reservatórios de carbono, essas áreas verdes auxiliam na atenuação dos impactos do aquecimento global, proporcionando também benefícios significativos para a saúde e a qualidade de vida.

VERDE ALÉM DO OLHAR

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Contudo, especialistas como Wan-YU Shih, professor no departamento de planejamento urbano na Universidade de Ming-Chuan, em Taiwan, advertem que simplesmente aumentar a presença de áreas verdes, sem considerar as condições locais, pode resultar em uma eficácia limitada na redução do aquecimento urbano.

Conforme destacado por ele em artigo ao Eco-Business, em muitas situações, a eficácia dessas áreas verdes mal se faz perceber a uma distância superior a 100 metros. O professor ressalta que as formas topográficas e geométricas do entorno desempenham um papel crucial na determinação da extensão em que o ar frio pode penetrar, visto que fontes de calor e estruturas físicas podem servir como barreiras que bloqueiam o fluxo de ar.

Em ambientes urbanos densamente povoados, onde o espaço disponível é limitado, compreender essas condições se torna fundamental para desenvolver estratégias eficazes na criação de áreas verdes que verdadeiramente combatam o aumento da temperatura nas cidades.

Para ele, embora grandes áreas verdes sejam desejáveis para criar ilhas de resfriamento estáveis, nem todas as cidades têm a capacidade de implementá-las integralmente. Ainda assim, mesmo pequenos aglomerados de espaços verdes podem ser importantes na distribuição de ar frio e na redução do calor urbano.

Fonte: Habitability

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