Estudo da ABRAINC/DEEP sobre emissões de GEE na construção é destaque no Valor Econômico
Resultado se deve à predominância de fontes renováveis na matriz elétrica, segundo levantamento
Por Alex Jorge Braga
28/01/2026
Luiz França, da Abrainc: “Temos que reconhecer que no cenário internacional temos uma posição bem melhor” — Foto: Rogerio Vieira/Valor
A construção civil no Brasil opera com um dos menores perfis de emissões de gases de efeito estufa (GEE) no cenário internacional. O setor emite, em média, 0,43 tonelada de CO2 por habitante ao ano, contra 3,06 toneladas na média mundial - diferença de mais de sete vezes, segundo pesquisa elaborada pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), em parceria com a consultoria DEEP ESG.
Quando se considera a área construída, as emissões nacionais variam de 0,49 a 0,56 tonelada de CO2 por metro quadrado, em comparação a 1,53 tonelada de CO2 por metro quadrado no cenário global.
Representando 5,3% das emissões nacionais de carbono, a construção civil tem esse resultado devido à predominância de fontes renováveis na matriz elétrica, segundo o estudo.
“O Brasil, como os demais países, tem como dever reduzir a emissão de carbono. Isso ninguém discute. Porém temos que reconhecer que no cenário internacional temos uma posição bem melhor”, diz Luiz França, presidente da Abrainc.
O estudo aponta ainda que 94,8% das emissões associadas à construção estão concentradas no chamado “escopo 3” - ou seja, na cadeia de suprimentos: produção de cimento, aço, vidro e outros materiais essenciais às obras. As emissões diretas (escopo 1) representam 5%, enquanto as emissões de energia (escopo 2) correspondem a 0,3%.
A pesquisa também projeta que a expansão da moradia formal e o avanço da inclusão social devem elevar o consumo energético nas próximas décadas, à medida que famílias vulneráveis migrem para habitações mais adequadas. No entanto, mesmo esse processo de formalização tende a manter o país com baixas emissões, “desde que nossa matriz elétrica permaneça majoritariamente renovável”, afirma França.
Segundo a Fundação João Pinheiro, o Brasil registra um déficit habitacional de aproximadamente 5,9 milhões de domicílios, evidenciando a necessidade de ampliar de forma contínua a oferta de moradias para atender tanto a demanda reprimida quanto a formação anual de novas famílias.
Nesse contexto, França acredita que o desafio brasileiro é promover desenvolvimento urbano com redução de impacto ambiental. Para avançar nessa trajetória, ele recomenda a modernização da cadeia de material, a ampliação de sistemas construtivos industrializados, o estímulo à circularidade e, principalmente, o planejamento urbano das cidades.
Em sua análise, as cidades devem ser mais adensadas a fim de que as pessoas transitem com mais facilidade e rapidez. “No Brasil, 75% das emissões de GEE nas cidades vêm do transporte, por isso é importante reduzir o número de veículos, o que, consequentemente, vai melhorar a qualidade de vida da população.”
Para isso, o CEO da DEEP ESG, Arthur Covatti, diz que as cidades brasileiras devem seguir mais o modelo adensado das cidades europeias e menos o modelo dos subúrbios americanos.
“Na Europa, o padrão de desenvolvimento urbano é mais vertical, apoiado no transporte público, o que é mais limpo na perspectiva de emissão de GEE”, explica. “Pode até causar uma certa estranheza, mas uma cidade adensada é boa para o meio ambiente e são mais baratas e inclusivas.”
Na mesma linha, Bruno Sindona, presidente do Instituto das Cidades, acredita que é um dever do poder público pensar em cidades mais adensadas, pois, em sua análise, “espraiar a cidade é um ato antidemocrático”. “Conseguimos levar as construtoras para os arrabaldes urbanos, mas não levamos acesso à cultura, ao lazer, ao esporte, à educação e à segurança. O resultado: se vive em guetos, porque não dá a possibilidade de a pessoa morar no centro.”
Entretanto, Sindona acredita que a menor emissão de GEE pela construção civil no país se deve “à produção mais artesanal” do setor. “Ao contrário dos outros países que cresceram no uso de tecnologia e maquinário”, explica o especialista, que é fundador da holding Sindona.
“Por que uma pessoa que resolve se mudar para os Estados Unidos para ‘fazer a vida’ topa ser pedreiro lá e não aqui? Por causa de tecnologia e maquinário. Lógico que podemos discutir questões sociais e comportamentais, mas o trabalho pesado quem faz é a máquina”, diz.
Sindona explica que na Europa e nos Estados Unidos o processo é mais industrializado. No Brasil, a construção civil é manufaturada em quase todo o processo. “Nós não levamos lajes nem paredes prontas para o canteiro de obra, por exemplo”, diz.
“O único setor que no Brasil mergulhou em tecnologia é o agro, por isso somos recordistas mundiais de produtividade nessa área. Precisamos, portanto, de uma Embrapa para construção civil”, diz ele defendendo investimentos públicos no setor.