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27 de março de 2023

EcoDistritos: cidades sustentáveis a partir de bairros inovadores

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Indo além das ações para reduzir os efeitos das mudanças climáticas, os EcoDistritos são lugares de uso misto, caminháveis, diversos, com participação das comunidades e que disponibilizam espaços públicos para a interação e maior conexão entre área edificada e a natureza.

Até 2050, 68% da população mundial viverá no meio urbano, estima o Relatório Mundial das Cidades 2022 da ONU-Habitat. Com a previsão de ter mais 2,2 bilhões de habitantes no planeta nos próximos 27 anos, os municípios enfrentam o complexo desafio de contar com infraestrutura, moradia e soluções ambientais para atender aos seus residentes e às demandas que surgem nesse cenário. Dentro desse contexto, os EcoDistritos se configuram em uma alternativa para a construção de localidades mais resistentes às transformações climáticas, sociais e econômicas.

De maneira ampla, os bairros ecológicos são desenvolvidos com o foco na criação de comunidades mais justas, resilientes e sustentáveis, como descreve a organização EcoDistricts, fundada em 2013 para disseminar projetos desse tipo na América do Norte e em outros países e capacitar profissionais para implementá-los. Entre as características desses distritos, que podem ser novos empreendimentos ou regiões já existentes revitalizadas, eles têm as pessoas e as questões ambientais no centro das decisões urbanísticas, aliam inovação e eficiência energética e economia de água, são caminháveis e oferecem conexão com outros meios de transporte, como ciclovias, paradas de ônibus e/ou estações de trem ou metrô, detalha reportagem do The Urbanist, entidade sem fins lucrativos com sede em Seattle (Washington, EUA), que analisa e divulga políticas voltadas para as cidades.

Outra particularidade desses bairros, principalmente em lugares densamente ocupados, é a presença de espaços verdes maiores que nas demais áreas dos municípios e a preservação da biodiversidade local. Hortas comunitárias também fazem parte de muitos EcoDistritos, que podem ainda ser instalados com o objetivo de recuperar um território que estava degradado, reforça a matéria do The Urbanist. Para atingirem a meta de serem mais inclusivos, diversos e viáveis economicamente, esses bairros são idealizados unindo diferentes formatos de habitação, comércio e negócios.

O uso misto do solo contribui para a vitalidade dessas comunidades, que contam, na maioria de seus exemplos, com moradias populares, escolas públicas, creches e centros para idosos. Os estabelecimentos nesses distritos são fundamentais também para a geração de empregos e renda, o que – em conjunto com as demais iniciativas promovidas – tornam esses bairros e os seus residentes mais preparados para suportarem os reflexos sociais, financeiros e das mudanças climáticas. Outro fator comum a essas comunidades é a participação, administração e liderança dos indivíduos que vivem nelas e que ajudam a identificar as necessidades da região e os caminhos para resolvê-las.

Vistos como a alma das cidades pela EcoDistricts, os bairros possuem uma escala única para introduzir e acelerar investimentos que podem resultar em melhorias significativas para a população e o planeta. Isso porque eles são, segundo a entidade, pequenos o suficiente para inovar e grandes o bastante para alavancar recursos e políticas públicas. A organização, que desde 2022 faz parte da Partnership for Southern Equity (PSE) – uma ONG sediada em Atlanta (Geórgia, EUA) que atua na potencialização do movimento de crescimento justo e igualdade racial – elaborou um protocolo para os EcoDistritos com o intuito de fomentar o desenvolvimento de novos empreendimentos urbanos dessa natureza.

Realizado com a participação de mais de 100 profissionais de várias nações, o documento é dividido em três etapas: prioridades, objetivos e implementação. Todas as comunidades devem possuir três princípios norteadores mais amplos, os de equidade, resiliência e proteção climática. O primeiro deles está ligado à garantia dos habitantes de um bairro ecológico terem voz nas deliberações sobre o espaço e poderem prosperar. Já o segundo quesito relaciona-se com a capacidade das localidades funcionarem de modo que os cidadãos consigam atravessar momentos de tensões sociais, econômicas e ambientais. E por fim a proteção climática diz respeito à busca por medidas que reduzam as emissões de dióxido de carbono.

Essas prioridades são distribuídas em seis áreas mais específicas que auxiliam na definição das ações a serem efetuadas. Através delas (Lugar, Prosperidade, Saúde e bem-estar, Conectividade, Estrutura Viva e Restauração de recursos), são planejadas táticas e atividades que possibilitem uma conexão das pessoas com os seus EcoDistritos, manutenção da história e cultura da região e a concepção de áreas coletivas e moradias distintas e acessíveis. Proporcionar segurança e espaços para o lazer, caminhar e pedalar e estabelecer um lugar estimulante para a abertura de empresas e vagas de trabalho são outras iniciativas incentivadas por essas comunidades.

A entidade salienta ainda em seu protocolo a importância da recuperação da vegetação e da manutenção dos recursos ambientais, adotando recursos tecnológicos para elevar o uso de fontes de energia limpa e renovável, racionalizar a utilização da água e descartar corretamente os resíduos. Para colocar em prática esses parâmetros, a EcoDistricts formulou um método para replicar, escalonar e adaptar esses bairros ecológicos a diversas realidades. O passo inicial é formar lideranças para apoiar e colaborar com as medidas e depois montar um plano com metas de desempenho, estratégias viáveis, cronograma e investimentos para a sua concretização. Por fim, é preciso avaliar o progresso dos objetivos traçados e fazer os ajustes necessários.

EcoDistrito em Rennes, na França, deve ficar pronto em 2028 e ter 10 mil residentes

Instalado em uma área de 1.150.000 metros quadrados, o La Courrouze Eco Quartier está sendo construído na região histórica de Rennes, na França, e deve se tornar um grande bairro inserido em um espaço verde, adianta a reportagem do The Urbanist. O projeto, iniciado em 2003, está sendo realizado em fases e a perspectiva, de acordo com o site da comunidade, é que ele seja concluído em 2028 e reúna cerca de 5 mil habitações, 10 mil moradores e 4,5 mil empregos.

A infraestrutura do EcoDistrito, que abrange também o município de Saint-Jacques-de-la-Lande, contará com duas estações de metrô, ciclovias, ambiente para caminhadas, jardins, parque natural com trilhas e lugares para lazer, esportes e encontros da vizinhança. Além disso, terá imóveis acessíveis para idosos e universitários, comércio, escritórios, escolas e um centro de eventos – um antigo pavilhão industrial readaptado. O La Courrouze é uma resposta à expansão urbana atual nessa área da Bretanha, que conectará as duas cidades e diminuirá as distâncias entre as diferentes tarefas que fazem parte do dia a dia dos indivíduos: morar, trabalhar e se divertir.

Com formas urbanas e tipos de habitações variados – de prédios de até 11 andares a casas com pátio –, o bairro ganhará novas ruas e pontos de interação social e com o verde em praças, bosques e esplanadas, espaços que seguem o movimento natural do terreno em que serão implementados. Entre as ações sustentáveis, a comunidade terá edificações e ambientes coletivos com soluções para o reaproveitamento de águas pluviais, coleta seletiva e triagem de resíduos, composteiras e eficiência no uso de energia. No total, o La Courrouze terá 400 mil metros quadrados de áreas verdes e 40 estabelecimentos comerciais e de serviços.

Mônaco investe 2 bilhões de euros em EcoDistrito à beira-mar

Criado com o foco nos pedestres, o MareTerra, em Mônaco, terá um parque público de 10 mil metros quadrados, um novo porto com 15 lugares para embarcações atracarem cercado de lojas e restaurantes, estacionamento subterrâneo, escritórios, residências de luxo para aproximadamente 3 mil pessoas e jardins junto ao oceano. Com um investimento estimado em 2 bilhões de euros, a perspectiva para o final das obras do EcoDistrito é em 2025, conforme matéria da Folha de São Paulo.

O masterplan foi idealizado pelo escritório Valode & Pistre Architectes, o projeto arquitetônico pela empresa Renzo Piano Building Workshop e o paisagismo por Michel Desvigne. A ligação entre o espaço urbano e o litoral é feita através dos ambientes coletivos e de um calçadão que acompanha toda a extensão do complexo imobiliário, que respeita o contorno sinuoso natural do local. A construção possuirá painéis fotovoltaicos na cobertura e soluções de iluminação que evitam o emprego de venezianas tradicionais para preservar a vista para o mar, destaca reportagem do ArchDaily.

Uma das metas estipuladas para o Mareterra é ser completamente neutro em carbono até 2050 e para isso o EcoDistrito contará também com sistemas de tratamento de águas pluviais, estações de e-bikes (bicicletas elétricas), 200 pontos de carregamento de veículos elétricos e baterias para armazenar o excedente de energia, ressalta a Folha de São Paulo. O jornal acrescenta que o sol e o mar serão responsáveis por fornecer cerca de 40% das necessidades energéticas da área.

As iniciativas em Rennes e em Mônaco são apenas algumas em desenvolvimento no mundo. A organização EcoDistricts apresenta outros casos de estudo em distintas fases de instalação, como o bairro Capitol Hill, que fica no coração da comunidade LGBTQ de Seattle e concentra um grande número de moradores, artistas e atividades, como mercados pop-ups, e Little Haiti em Miami (Flórida, EUA). As duas medidas procuram manter a identidade dos lugares e construir mais imóveis e equipamentos urbanos e atrair estabelecimentos para que as regiões não percam o seu dinamismo. Há ainda EcoDistritos no Canadá, Alemanha, Suécia, Reino Unido, França, entre outros países.

Fonte: Movimento Somos Cidade

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