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Quem comprou imóvel para alugar em São Paulo ganhou 16,9% ao ano, afirma presidente da ABRAINC em entrevista ao Valor Econômico

Entrevista com Luiz França, presidente da ABRAINC, publicada no Valor Econômico

O avanço da vacina e a valorização de 12,5% dos imóveis no país em um ano, superando 19% em São Paulo, são apontados pelo engenheiro Luiz Antonio Nogueira de França como sinais de que o pior já foi superado. Presidente da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc), França é puro otimismo com as perspectivas do mercado imobiliário e avalia que a “onda forte” de pessoas fugindo da cidade para o campo por causa da pandemia virou passado — o que não significa que o longo período de ameaça sanitária não deixará marcas. Uma delas é a valorização de escritórios espaçosos. “A tendência é buscar espaços maiores para garantir distância entre as pessoas”, prevê.

A valorização de 12,55% dos imóveis, segundo o IGMI-R, é motivo para comemoração, mesmo levando-se em conta que o ano-base da comparação foi marcado pelo medo da pandemia?

Luiz França — Sim, pois mesmo na pandemia houve procura por imóveis. As pessoas começaram a repensar o tipo de moradia, e esse repensar fez com que procurassem opções para comprar. Além dessa procura, é preciso destacar as taxas mais baixas de juros para o financiamento imobiliário. Juro baixo é um indutor muito forte para a procura de ativos reais, como o imóvel.

O juro baixo impulsiona apenas o mercado de classe média ou o de alto padrão também?

A classe média está muito mais ligada ao fator da prestação. Sob essa ótica, no mercado de alto padrão, a interferência não é tão grande, pois os imóveis tendem a ser comprados em tabelas curtas ou à vista. Por outro lado, com juros muito baixos, outros investimentos perdem a atratividade. Veja que informação bacana: em dez anos, de 2009 a 2019, a valorização do imóvel, sem considerar o aluguel, foi equivalente à variação da Selic. Mesmo quem comprou um imóvel para morar teve o rendimento do patrimônio igual à Selic, ou seja, é um título extremamente seguro. Quem comprou para alugar teve a Selic mais o aluguel. Em São Paulo, quem fez isso ganhou 16,9% ao ano. O CDB pagou 9,8%.

A alta recente de juros, a insegurança em relação ao teto de gastos e a inflação preocupam?

Temos que olhar o mundo inteiro. Não é só o Brasil que está passando por esse fenômeno. Todos os países têm inflação e desordenamento de cadeias produtivas. É algo sistêmico que vai ter acomodação natural, sem dúvida. Não tenho a mínima preocupação com isso. O Brasil está chegando a níveis de vacinação acima dos vários países, o que nos dá uma visibilidade grande no pós-pandemia. O teto de gastos é uma ferramenta importante, mas, se for necessário fazer alguma mexida para um programa importante para a população, sendo pontual, não recorrente, não gera problema. Economias sólidas também pediram autorização para gastar mais após a pandemia. O fato de se discutir o teto de gastos é sinal de maturidade e de mudanças no país na última década. Foi um ganho muito positivo. Hoje, o governo tem que pedir permissão para isso. O Brasil é outro, a evolução foi grande.

O consumidor brasileiro já incorporou a sustentabilidade como critério na compra do imóvel ou as questões ASG não são preponderantes na escolha do imóvel?

O nível de consciência vem aumentando muito. Em imóveis comerciais, já é altíssimo, há muitas premiações à sustentabilidade, ao reúso da água, a fontes alternativas de energia, materiais especiais, iluminação natural… Há uma cultura grande de descarte de lixo seletivo em vários condomínios. O consumidor olha a sustentabilidade também sob o aspecto de custo. Tudo o que é escasso fica caro. Quem não fizer essa opção pelo meio ambiente vai ter que fazer pela economia. Isso veio para ficar. Ou a pessoa tem consciência ou vai pagar caro por usar energias.

A procura por residências com mais espaço será mantida no pós-pandemia?

Para comprar o imóvel, passa a ser determinante prever um espaço para o home office, porque a expectativa é que os funcionários não voltarão 100% ao trabalho presencial. Assim como a questão do delivery, de espaço para receber as compras nos condomínios. As pessoas aceleraram o hábito de comprar as coisas online. Esse hábito vai permanecer, e haverá necessidade de lugares específicos, nos prédios residenciais, para guardar as mercadorias para o morador que não estiver em casa na hora da entrega.

E o movimento de migração das cidades grandes para o campo?

As pessoas com alto poder aquisitivo que tinham essas casas se refugiaram da pandemia nesses locais e perceberam mais qualidade de vida. Houve uma onda forte que movimentou o mercado, mas agora observamos um fluxo de retorno às moradias originais. O trabalho presencial está voltando, há mais procura por aluguel comercial. As empresas buscam áreas adicionais para ter mais espaço e manter certa distância entre as pessoas.

Como o mercado de alto padrão se comportou na pandemia e quais são as perspectivas?

Há uma pesquisa muito boa da empresa Numbeo, que compara o valor do metro quadrado, em dólar, no mundo. São Paulo está no 287º lugar no ranking, à frente do Rio (330º) e de Belo Horizonte (367º). Ou seja, a cidade brasileira mais bem colocada no ranking é São Paulo, e há 286 cidades na frente. Isso significa que há muito espaço para subir. O Brasil terá crescimento de renda e de poder aquisitivo. Quando você olha a perspectiva de médio e longo prazos, claramente o preço dos imóveis está muito aquém do de cidades em países mais desenvolvidos.

Entrevista publicada no Valor Econômico